No fundo, aquilo que eu quero é não estar na presença de nada capaz de impedir que os meus pensamentos se definam e, eventualmente, se transformem em palavras que mais tarde, se me apetecer, organizarei de forma a formar um texto, bem ou mal estruturado, que colocarei num dos meus blogues!
É de noite e, enquanto me arrepio e encolho da briza fresca que acabou de se fazer sentir, vou escutando o barulho incessante dos carros que circulam na estrada que passa em frente ao “meu” prédio! É domingo. E já é tão tarde! Quem levam dentro? De onde vêm? Ou para onde vão?
Vejo uma infinidade de luzes amarelas que se vão desvanecendo à medida que os carros se vão afastando e os faróis tornando cada vez mais distantes! E pontinhos pequenos e vermelhos a piscarem ao fundo e lá no alto (serão aviões? Quem levam dentro? Estarão a sair ou a chegar agora ao Porto? De onde vêm? Ou para onde vão?). E as sombras? As sombras que vejo além, nas janelas acessas penduradas no escuro? De quem serão? E em que é que estarão a pensar as pessoas que as reflectem?
É engraçado como de dia tenho uma visão completamente distinta deste mesmo sítio que vejo agora, à noite!
De noite, se olhar ao fundo, não vejo nada que não pontinhos coloridos, pontinhos com tantos significados quantas pessoas que os observam, pontinhos eternos como esta noite de Fevereiro em que o barulho dos carros aumenta à medida que foco a minha atenção sobre eles.
Mas o facto é que esses pequenos pontinhos brilhantes que vejo agora à noite, aparentemente soltos no vazio, nunca estão sós, e a verdade é que junto deles está sempre camuflada uma outra coisa qualquer que nada tem que ver com o vazio. Um carro, um avião, um prédio, uma casa, uma pessoa, um conjunto delas, uma família.. visiveis apenas de dia, que se transformam à noite!
Agora lembrei-me de uns pirilampos… mágicos! Pirilampos mágicos! (acho que era assim que se chamavam)
Uns pirilampos pequeninos que por sinal já não vejo há anos, e que eu colava sempre, entusiasmadamente, assim que os recebia, numa das pequenas janelas da casinha que era o meu guarda-fatos.
Tinha uma colecção deles eu! De pequenos pirilampos mágicos que de dia não passavam disso mesmo… de pequenos pirilampos mágicos! Coloridos, estáticos, colados num parapeito de uma das janelas da casinha que era o meu guarda-fatos, e com nenhuma outra função para além da estética. De pequenos enfeites portanto, iguais a tantos outros que eu devo ter ignorado, tal como os ignorei a eles enquanto havia luz, um número elevado e finito de vezes, e que de magia até nem tinham nada!
Eu tinha uma colecção de pirilampos…
De pequenos pirilampos mágicos que se transformavam durante o anoitecer, e que à noite eram já pequenos pontinhos brilhantes e coloridos semelhantes a estes que vejo agora, ao invés de pequenos enfeites só!
E talvez seja daí que vem o termo mágico… Dos pequenos pontinhos brilhantes e coloridos em que se transformavam os meus pirilampos (e provavelmente os pirilampos dos outros) e que, por sinal, me ajudavam bastante a adormecer, levando para longe todo um conjunto de medos e receios próprios daquela idade. Mágico… Dos pequenos pontinhos brilhantes e coloridos pendurados no escuro a quem eu pedia, silenciosamente e sem qualquer tipo de fundamento, que me ajudassem a concretizar e a alcançar todos os sonhos e desejos que ia delineando com o decorrer do tempo. Dos pequenos pontinhos brilhantes e coloridos que me fortaleciam da força e da esperança necessária à concretização de qualquer desejo, e me enchiam de alegria, os sonhos.
Dos pequenos pontinhos brilhantes e coloridos dos meus pirilampos (e provavelmente dos pirilampos dos outros) que eu vejo agora além, daqui.. da varanda do quarto que aluguei este ano no Campo Alegre!
Bia.
(07/02/2010)

